Encontro da CRB de Maringá - Reencantar a vida religiosa
Introdução
O
que vem primeiro: a vida ou a atividade profissional seja ela qual for
(inclusive a religiosa)?
Tudo
o que fazemos é um ato segundo. Digo isso porque o ato primeiro e fundamental é
a própria vida e, por causa disso, a necessidade de cuidar dela adequadamente.
Conseqüentemente, quanto mais e melhor nos construímos apresenta-se a
possibilidade de realizarmos com muito mais competência, sentido e finalidade nossas
atividades.
Somos
seres inacabados e, por isso, precisamos caminhar em direção da nossa própria
construção.
Não
vemos, por exemplo, um Beija-flor com crise de identidade ou, ainda, um João de
Barro numa profunda reflexão se ele irá construir ou não a sua casinha sobre o
galho da árvore. Eles não precisam ser motivados porque a vida deles se resume
num belo quadro sem possibilidade de surpresas ou ainda de perguntas.
1. Reencantamos
a vida religiosa quando vivemos acima da mediocridade e da indiferença:
Deveríamos alimentar certo
sentimento de ódio às pessoas indiferentes. A indiferença é uma doença. Quantas
e quantas vezes a indiferença toma conta de nossas vidas e inutiliza nossos
sonhos? Quantas e quantas vezes nossos planos mais bem sucedidos não ficam
completamente comprometidos por causa dela? A indiferença é a matéria prima que
se rebela e compromete o entusiasmo e a criatividade. Amarra nossos braços e
trava as nossas pernas. Emudece nossos lábios e paralisa nossos corações. Fecha
nossos olhos e corrói as nossas almas. O indiferente quando olha no espelho vê
o reflexo de um covarde e de um parasita.

Odeio os indiferentes que
ficam a espera de uma mudança que nunca acontecerá. Odeio os indiferentes que
gostariam de ouvir palavras que nunca foram pronunciadas. Odeio os indiferentes
que paralisados sonham que estão caminhando nos passos dos outros. Odeio os
indiferentes que buscam atingir o segundo passo quando o primeiro,
covardemente, ainda não foi dado. Afinal, para esses, não importa se fazem ou
deixam de fazer, se sentem ou deixam de sentir, se caminham ou simplesmente
permanecem parados. Não compreendem que 100 passos dados em 100 caminhos
diferentes não levam a lugar algum. Vale mais dar 10 passos num só caminho que
se vai mais longe.
O medíocre
contenta-se em ser o que é. Nele não há espaço para mudança. É incapaz de
esforço, de exigência (aumentar a), de superação de si. Superar-se, ser
bem-sucedido no que empreende, vencer as provações, inventar, criar são paixões
que podemos associar à idéia de vontade de poder (um conceito de Nietzsche).
Uma
tentação muito comum é nos acomodarmos com a média, o padrão do meio, a
qualidade sem excelência, o mínimo necessário. A média é
também o padrão da mediocridade. E isto é assustador, para dizer o mínimo.
Quantas oportunidades temos na vida para realizar algo com excelência e
qualidade? A maioria das vezes falamos, agimos, expressamos, sentimos,
refletimos como se a rotina tivesse nos dominado por completo e, assim, ficamos
completa e absolutamente à mercê dos mesmos gestos, dos mesmos pensamentos, das
mesmas ações. A escravização pela mediocridade é uma das piores formas de
escravização que pode acontecer a um ser humano. Passamos a ser escravos da
nossa própria apatia que nos constrange a ficar parados enquanto podíamos
caminhar.
O
medíocre se contentou em ser menos quando poderia ser mais. Trocou os passos
firmes e prósperos em direção ao futuro pela comodidade dos passos lentos e
trêmulos. O medíocre não consegue olhar para o horizonte. Sua visão de mundo é
do tamanho de si mesmo. Olha para dentro ao invés de contemplar os espaços
vazios do horizonte que precisam ser preenchidos por ele mesmo. O medíocre não
pensa; mas deixa que outros pensem por ele. Não sonha; permite que outros
sonhem por ele. Ao assumir o padrão da mediocridade vivemos como se não
pudéssemos dar saltos de qualidade e de excelência na vida.
Aqueles
que optam tão somente pela média abandonam os desejos de explorar novos espaços
e surpreendentes possibilidades. É possível medir o tamanho de um ser humano
pela maneira como ele vive. Basta que olhemos para a maneira como vivemos o
cotidiano. E dessa forma iremos descobrir algo que muito possivelmente estava
escondido em nosso interior e que tínhamos certo receio de mostrar e demonstrar
para todos, ou seja, para vencermos a mediocridade: Não basta sonhar, é preciso
sonhar com qualidade e excelência; Não basta pensar, é preciso pensar com
qualidade e excelência; Não basta amar, é preciso amar com qualidade e
excelência; Não basta trabalhar, é preciso trabalhar com qualidade e
excelência; Não basta viver, é preciso viver com qualidade e excelência.
2. Reencantamos a vida religiosa quando
vivemos no e com o Espírito Santo:
Uma
das imagens mais belas do Espírito Santo é aquela em que ele é mostrado como se
fosse um vento. E, entre tantas possibilidades que vem à mente, o vento pode
ser visto como movimento e, portanto, ação. Não há passividade no Espírito e,
de forma conseqüente, todas as pessoas com as quais ele tem contato, são
levadas ao movimento e à transformação. Aonde o Espírito chega a passividade
diz adeus e se instala de forma absoluta o desejo de mudar.
Maria
ficou grávida porque o Espírito agiu sobre ela. A partir desse momento Maria
passaria pela maior das mudanças que poderia sequer sonhar. Jamais alguém foi
transformado de tal forma e magnitude quanto Maria. Até então ela se encontrava
presa aos afazeres do cotidiano de qualquer mulher de seu tempo. Mas, quando
Maria percebe o vento novo que sopra em sua direção e se conscientiza de que
está na hora de ser e de viver como uma nova mulher.
O
transcendente toma conta de Maria. Ela está grávida não de um projeto humano,
mas de um projeto que vem do alto e que é maior do que ela mesma. O maior de
todos os projetos coube adequadamente no ventre de Maria. A beleza de Deus se
manifesta na grandeza de seus projetos que nascem dentro de nós e que devem ser
gestados para o mundo.
A
ação do Espírito em Maria fez toda a diferença. Ela nunca mais seria a mesma.
Sua vida estava irremediavelmente marcada e selada pela ação do Espírito. Seu
ventre havia sido separado para abrigar o poder de Deus feito criança.
Penso
na passividade que marca a muitos de nós. Geralmente reclamamos da monotonia e
do cotidiano que se repete à exaustão, cansando-nos e nos levando ao desespero
da depressão. Esse ciclo interminável das mesmas coisas que se repetem nos
constrange a ficar parado como se não houvesse mais caminhos a trilhar.
A
mudança que alterou a rotina de Maria tem nome: Espírito Santo. Ela ficou cheia
da maior de todas as forças e, por isso, desse encontro ela saiu fortalecida.
Seu cotidiano não estaria mais marcado pela mesmice, mas sim pela poderosa
revolução que Deus estava fazendo em sua vida. Maria era uma mulher que vivia
no Espírito Santo e, por isso, sua vida estava marcada pela suavidade do vento
que refresca a vida, mas que também provoca as mais fundamentais mudanças em
nosso modo de ser e de viver.
Viver
no e com o Espírito Santo significa, ao contrário do que muitos pensam e
gostariam, viver inserido na realidade. Talvez seja essa uma das principais
funções do Espírito: lançar-nos no olho do furacão, isto é, nos inserir na
realidade para que ali o projeto de Deus tenha condições de nascer. Nesse caso,
a cão do espírito diz não à alienação e sim à leitura e proteção da vida.
Nossa
passividade está em relação direta com a nossa falta do Espírito. Não podemos e
muito menos devemos colocar o Espírito Santo em grades. O lugar dele é
dentro de nós. Podemos dizer que a maior e mais fundamental das revoluções tem
início a partir do momento em que dizemos: “Vem Espírito Santo, vem habitar em
minha vida”.
3. Reencantamos a vida religiosa quando
construímos sentido para a vida:
Nietzsche
dizia que a perda de sentido é “a esponja que apaga o horizonte” e que o homem
é um “animal enfermo de sentido”. Uma das perguntas mais emblemáticas que
fazemos é justamente essa: Qual o sentido da vida? Temo que a grande maioria
das pessoas não saiba como responder a essa pergunta. E, conseqüentemente, vivem
a vida toda à procura de um sentido que nunca encontram. Sentido é o que nos
liberta das amarras que nos aprisionam e dos medos que nos aterrorizam.
Aprisionados não encontramos a própria identidade e a finalidade de vivermos,
ou seja, o próprio sentido.
Não
podemos abrir mão da identidade que temos, nem da finalidade que procuramos
como seres humanos. Posso afirmar que a identidade é o valor fundamental para a
pessoa e a finalidade é o maior motivo que a pessoa pode ter. Se Nietzsche
estiver certo ao afirmar que o homem é um animal enfermo de sentido, também é
possível afirmar irretocavelmente que o que cura o ser humano enfermo é exatamente
viver o sentido ou com sentido. É o encontro com o sentido que cura, fortalece
e deixa acesa a razão de viver. Quando perdemos o sentido, perdemos também a
paixão e nocauteamos a esperança. Mas não podemos nos esquecer de que a própria
essência do ser humano não admite estar sem esperança.
Construímos
sentido para a vida (identidade e finalidade), por exemplo, quando amamos. É
possível dizer que o sentido somente será eficaz quando existir o amor por
alguém, quando existir uma presença a quem responder com atos e palavras de
amor. O sentido para a vida vai se
tornando real à medida que nos aproximamos das outras pessoas e contribuímos
para que “também elas” se encontrem nesse caminho que é igual para todos nós.
Prof. Dr. Luiz Alexandre Solano Rossi
Organizadora: Irmã Maria Vieira Feitoza, ICP.